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domingo, 13 de setembro de 2026

Setembro amarelo: a cidade que aprendeu a falar da morte, mas ainda precisa aprender a falar da vida

 10 de setembro.

Existe uma data para quase tudo. Para comemorar, para lembrar, para homenagear, para comprar, para vender. Há dias para celebrar profissões, amores, mães, pais, crianças, animais, árvores, doenças e até alimentos.

E existe um dia para lembrar que algumas pessoas estão tão cansadas de viver que começam a acreditar que morrer seria a única maneira de descansar.

Em Venâncio Aires, falar sobre isso já não deveria causar estranheza.

Talvez porque nossa cidade tenha aprendido, ao longo dos anos, a conviver com uma estatística que nenhum município gostaria de carregar.

Em 2024, Venâncio Aires apresentou a maior taxa de mortalidade por suicídio entre os municípios gaúchos com mais de 50 mil habitantes: 33,81 mortes para cada 100 mil habitantes. Foram 22 vidas interrompidas. Um número que cabe em uma tabela, mas jamais deveria caber dentro da nossa consciência como apenas mais um número. (Saúde RS)

Porque estatística não tem rosto.

Mas a vida tinha.

Tinha nome.

Tinha família.

Tinha uma cadeira na cozinha.

Tinha alguém que talvez ainda hoje olhe para a porta esperando que aquela pessoa entre.

Tinha mensagens antigas no celular.

Tinha planos que não chegaram ao mês seguinte.

Tinha aniversário.

Tinha medo.

Tinha sonhos.

E talvez tivesse, principalmente, coisas que nunca conseguiu dizer.

 

Há alguma coisa profundamente contraditória em uma cidade que precisa pintar setembro de amarelo todos os anos para lembrar que pessoas precisam ser ouvidas.

Nós colocamos laços amarelos.

Fazemos caminhadas.

Palestras.

Campanhas.

Publicações nas redes sociais.

Falamos sobre prevenção.

E tudo isso é necessário.

Mas talvez exista uma pergunta que precise ser feita depois que setembro termina:

o que estamos fazendo em outubro?

E em novembro?

E em janeiro?

Porque quem está sofrendo não escolhe setembro para sofrer.

A depressão não olha o calendário.

A ansiedade não espera o próximo Setembro Amarelo.

A solidão não tira férias.

E uma pessoa que pensa em desistir da própria vida não precisa apenas de uma campanha bonita. Precisa encontrar alguém disposto a sentar ao seu lado quando não houver câmera, palestra, caminhada ou postagem.

Precisa de escuta.

Precisa de atendimento.

Precisa de acompanhamento.

Precisa de uma rede.

E, muitas vezes, precisa simplesmente encontrar alguém que tenha coragem de perguntar:

“Você não está bem, está?”

E permanecer ali para ouvir a resposta.

 

Talvez tenhamos ficado bons demais em perguntar:

“Como você está?”

E ruins demais em esperar pela resposta.

Porque quase sempre a resposta automática vem:

“Estou bem.”

E seguimos.

Voltamos ao trabalho.

À escola.

À faculdade.

À rotina.

Ao celular.

À nossa própria pressa.

Vivemos em um tempo em que tudo parece descartável.

Celulares são trocados.

Roupas são substituídas.

Relacionamentos terminam com um bloqueio.

Amizades desaparecem por falta de uma mensagem.

Problemas são ignorados até que desapareçam — ou até que explodam.

Aprendemos a substituir quase tudo.

E, talvez sem perceber, começamos a tratar pessoas como se também fossem substituíveis.

Mas não são.

Pessoa não é objeto com defeito que se troca.

Não existe botão de “restaurar” para uma vida.

Não existe segunda via para uma mãe.

Não existe reposição para um filho.

Não existe atualização que devolva alguém à mesa do jantar.

 

Por isso, talvez o maior desafio de Venâncio Aires não seja apenas diminuir uma taxa.

É impedir que a estatística se transforme em cultura.

É não permitir que uma sequência de perdas seja naturalizada.

É não aceitar que alguém diga:

“Ah, aqui sempre foi assim.”

Não.

Não precisa ser.

O fato de uma cidade carregar uma história tão dolorosa não significa que ela precise carregar o mesmo futuro.

Talvez seja justamente por conhecermos tão de perto essa dor que Venâncio Aires possa se transformar em uma cidade que ensine o Brasil não apenas a falar sobre suicídio, mas a falar sobre vida.

E falar sobre vida é falar sobre saúde mental nas escolas.

É ensinar crianças e adolescentes a reconhecerem sofrimento.

É preparar professores para perceber mudanças de comportamento.

É fortalecer famílias.

É ampliar o acesso à psicologia e à psiquiatria.

É cuidar do trabalhador.

É olhar para quem vive sozinho.

É chegar às comunidades rurais.

É conversar com homens que aprenderam que pedir ajuda é sinal de fraqueza.

É conversar com mulheres exaustas.

É ouvir idosos.

É olhar para os jovens.

É entender que prevenção não começa quando alguém está prestes a morrer.

Prevenção começa muito antes.

Começa quando alguém aprende que pode dizer:

“Eu não estou bem.”

E ninguém ri.

Ninguém diminui.

Ninguém responde:

“Isso é frescura.”

Ninguém manda simplesmente “pensar positivo”.

Alguém escuta.

 

No dia 10 de setembro, talvez devêssemos fazer menos barulho para lembrar a morte e mais silêncio para ouvir a vida.

Porque algumas pessoas não precisam de um discurso.

Precisam de companhia.

Precisam de tratamento.

Precisam de tempo.

Precisam de alguém que não vá embora quando a conversa ficar difícil.

E talvez essa seja a parte mais incômoda de toda essa história:

não basta perguntar se alguém pensa em morrer.

Precisamos estar preparados para permanecer quando a resposta for “sim”.

 

Venâncio Aires não deveria ser conhecida por quantas pessoas perdeu.

Deveria ser conhecida por quantas conseguiu alcançar antes que fosse tarde.

Que um dia, quando alguém pesquisar nossa cidade, não encontre primeiro uma estatística sobre suicídio.

Que encontre uma cidade que decidiu mudar.

Uma cidade onde falar sobre saúde mental não seja vergonha.

Onde pedir ajuda não seja fraqueza.

Onde chorar não seja motivo de julgamento.

Onde um adolescente possa dizer “não estou bem” sem medo.

Onde um trabalhador possa admitir que está esgotado.

Onde um pai possa falar de sua dor.

Onde uma mãe possa pedir ajuda.

Onde um amigo possa perguntar duas vezes.

Onde alguém possa simplesmente sentar ao lado de outro alguém e dizer:

“Eu fico. Você não precisa passar por isso sozinho.”

Porque talvez a maior vitória de uma cidade que durante tanto tempo apareceu nas estatísticas da morte seja justamente esta:

transformar o lugar onde tantos desistiram da vida no lugar onde ninguém mais precise enfrentar a dor sozinho.

E talvez seja aí que o Setembro Amarelo finalmente deixe de ser apenas uma campanha.

E comece a ser uma cultura.

 

Essa versão fica particularmente forte para publicação em jornal, concurso de crônicas ou postagem pública, porque não explora a dor de forma sensacionalista e, ao mesmo tempo, confronta a cidade com a pergunta: “o que estamos fazendo fora de setembro?”

-Alan Macedo

10/09/2026.


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